Cruzadas medievais & ultranacionalismo

 Qual pode ser a relação entre Cruzadas medievais, videogames , ultranacionalismo e radicalismo de direita?

   O  termo Cruzada só surgiu no século XIII, sendo que a primeira delas foi convocada pelo papa Urbano II, no século XI. O termo foi empregado para designar os oito movimentos que ocorreram entre 1096 e 1270, como também, a partir do século XIII, era usado para designar expedições contra pagãos, heréticos, a reconquista da Península Ibérica e a defesa dos estados pontifícios. 

   Desde o século V religiosos cristãos vinham desenvolvendo uma ética da guerra, a Paz de Deus e também a teoria da Guerra Justa.  A partir do Século XII a teoria da Guerra Justa passou a ser chamada   também de Guerra Santa.  Nesta ética da guerra a violência era considerada moralmente neutra e aceita conforme a intenção do agressor. Uma  ética  que  condenava a violência entre os cristãos, mas não contra os “hereges e pagãos” considerados inimigos da Igreja. 

   Deus vult, ou “Deus quer”,  foi adotado como lema da primeira Cruzada   que tinha como objetivo reconquistar Jerusalém e atender a um  pedido de ajuda do Imperador bizantino  para a  defesa de Constantinopla contra os turcos.

   Ao longo do tempo, as Cruzadas serviram para reforçar a autoridade papal, à medida em que os cristãos se uniam para defender a Igreja e quem a presidia. Aos que participavam de tais movimentos eram garantidos também “privilégios espirituais” como as indulgências.

   Além de heterogêneo, com causas diversas e combatendo diferentes inimigos, muçulmanos, hereges, judeus,  o movimento implicou em alguns momentos alianças entre cristãos e muçulmanos contra outros líderes, uma vez que as rivalidades existiam tanto entre líderes cristãos quanto entre líderes muçulmanos. 
Por outro lado, em todas as Cruzadas havia  a preocupação de se apresentar uma justa causa para o movimento, uma causa que justificasse um ataque defensivo. Nesse sentido, era preciso buscar um indicativo ou, elaborar uma evidência de ameaça.

   No contexto das Cruzadas, surgiram também as ordens religiosas militares, como a dos Hospitalários, a dos Templários e a dos Teutônicos.  Todas  surgiram em Jerusalém. E como eram consideradas “ordens religiosas”, devendo obediência apenas ao papa, tinham uma atuação transcontinental, tanto na chamada “terra Santa”, como também em boa parte dos territórios banhados pelo Mediterrâneo e, mais tarde, na área continental da Europa.

   Os membros das ordens eram chamados “freis”. Diferente dos monges, eles não levavam apenas uma vida contemplativa, mas faziam votos de castidade e também de pobreza. Dessa forma, muitos dos seus membros, ao ingressarem , doavam suas posses para as ordens. Mas eles também não eram “cruzados” porque, diferente desses, eram membros permanentes da Igreja.  

   Ao longo do tempo, as ordens acumularam um grande patrimônio. Sua riqueza era tanta que passou a ser cobiçada por monarcas. Além da cobiça, eram  orientados também pelo temor da influência política  dos “cavaleiros”.  Monarcas, como Felipe IV da França, ou Felipe o Belo, espalhavam rumores sobre os cavaleiros, acusando-os de heresia, ou de sodomia. Tais rumores, acolhidos pelo papa Clemente V como “verdades”, levaram a um processo inquisitorial que extinguiu a Ordem dos Templários.  As ordens do Hospital e Teutônica foram mantidas porque  tinham uma forte atuação caritativa. 

   O patrimônio dos templários na Península Ibérica foi transferido para os monarcas que criaram duas outras ordens, a Ordem de Cristo e a Maltesa. A Ordem do Hospital ainda existe, conhecida hoje como Ordem de Malta, tem sede em Roma, é uma ordem religiosa com  atividade caritativa e que tem status de observador permanente das Nações Unidas, a exemplo da Cruz Vermelha. 

   As Cruzadas e as Ordens Militares tiveram sua simbologia apropriada por diferentes movimentos políticos, sociais e culturais

   No século XIX, por exemplo, boa parte da mitologia cruzadística e dos cavaleiros alimentou movimentos nacionalistas e ideias de superioridade racial  que, no século XX, seriam incorporados a ideologias  extremistas como o Nazismo. 
No século XXI, o ex-presidente norte americano George W. Bush, usou o termo “cruzada” para justificar a sua campanha contra a Al-Qaeda e que culminou com a invasão do Iraque e do Afeganistão.

   Além disso, mais contemporaneamente, jogos de videogame como Assassins Creed e Crusaders Kings, séries, filmes e obras literárias como Código da Vinci,  Game of Thrones, Senhor dos Anéis têm uma clara inspiração nessa mitologia e numa visão romântica da Idade Média.

Em 2017, no contexto dos movimentos supremacistas brancos, o lema Deus Vult apareceu nas manifestações na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia. O mesmo lema foi tatuado no corpo pelo atual Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth. 

Hegseth, além da tatuagem, em textos, discursos, entrevistas e nas mais recentes declarações a respeito da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, mantém  uma retórica islamofóbica apresentando os muçulmanos como “ameaça existencial ao Ocidente.”
Por outro lado, em declarações de 2016, Hegseth elogiava membros do ISIS porque “lutavam por alguma coisa maior do que eles, lutavam por Deus”.  Declarava sua admiração como “guerreiro” que considera que é, entendendo o fanatismo como uma “vantagem”.
O Secretário de Defesa é também membro de uma confissão religiosa de extrema-direita, a Comunhão das Igrejas Evangélicas Reformadas. Esta confissão religiosa  entende que a os ensinamentos da Bíblia se aplicam a todas as esferas da vida e que as leis deveriam se basear neles; mantém seu próprio “tribunal inquisitorial”, com julgamentos e punições para os membros acusados de heresia. 

   O fanatismo que embala o discurso e as ações do secretário dos Estados Unidos não se limita àquele país. Já se espalhou há muito. Militares e membros de organizações religiosas incorporaram a simbologia, os mitos e as narrativas sem base histórica como “verdades reveladas”  a fim de justificar  seus interesses e ações. E é assim que a ficção vai virando realidade.

Para saber mais sobre como papas, religiosos, videogames e políticos contemporâneos se cruzaram, seguem algumas dicas:

. Podcast – As Cruzadas e as Ordens militares 18 ago 2024. Programa Medievalíssimo com a participação do professor Dirceu Marchini Neto Disponível em: https://guiamedieval.webhostusp.sti.usp.br/podcast-as-cruzadas-e-as-ordens-militares/ – O podcast é um dos episódios do programa conduzido por Bruno Rosa  no portal Medievalíssimo. Um portal de divulgação de conhecimento sobre a Idade Média.
   No episódio destacado aqui, o entrevistado é o professor da UNIFESP e medievalista Dirceu Marchini Neto. Se você não tem tempo, ou não quer ler, ponha o fone e embarque na história. 

. História Medieval – Marcelo Cândido Silva
O professor Marcelo Cândido da USP é um especialista no período medieval. Nesse livro ele oferece  uma visão geral da Idade Média baseada nas pesquisas mais recentes, desconstruindo uma boa parte do que ainda hoje é ensinado nas escolas e material didático por aí. Se você só estudou Idade Média na Educação Básica, precisa ler esse livro para se atualizar.
 
Do feudo à fábrica – Clara Versiani dos Anjos
Nesse e-book, além de desconstruir boa parte dos mitos e preconceitos sobre a Idade Média, demonstro que muito do que hoje chamamos “moderno” tem suas raízes naquele período.
   Se você pensa que a Idade Média não nos diz respeito porque, afinal, somos brasileiros e não europeus, leia o livro e me conte depois.

. Dicionário Analítico do Ocidente Medieval – Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt
Tenho que confessar, o Dicionário é um dos meus sonhos de consumo.
   Se você quiser investir um pouco mais e ter em casa uma obra de Referência com quase tudo sobre o período, é essa. Organizado por dois grandes historiadores franceses e, na versão em português, com a tradução de Hilário Franco Junior , professor e pesquisador do período, a obra é um luxo só. Informa, analisa e, principalmente, elimina preconceitos e visões engessadas.

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